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conaculta

"We must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem"

Técnica Mista

When you write you have always someone on your mind. Sempre. Pode até ser a tua maneira como mudas a página de um livroquando estás a ler um livro, mesmo que nunca te tenha visto fazer essa coisa tão sexy. Pode ser a maneira snobbish como olhaste para aquele cardápio como se já tivesse experimentado coisas muito mais sofisticadas. Tudo aconteceu num momento, é uma alegria porque é um reconhecimento de alguma coisa que nunca se viu, mas que depois de se ver sabemos que não podemos viver sem isso. Sem essas coisas que nunca existiram antes e mesmo assim eu era quase feliz. Nunca gostei tanto de um Domingo de manhã, como este, que é o primeiro Domingo da tua vida com a minha vida. When you write you have always someone on your mind: A tua boca. E agora que já te disse isto, já posso sair de casa um bocadinho apaixonada. Vou ao Apollo 70 e talvez compre uns ténis Dunlop.

Spotify

Quando eu tinha cinco anos descansava-me saber que as antenas da televisão dos prédios eram Pára-Raios. Tinha muita fé e rezava a Santa Bárbara, quando trovejava e estava com a minha avó Mimi em Vila Viçosa. Rezávamos também ao Padre Américo, de quem ela era devota. Eu nunca tinha visto uma figura religiosa de chapéu de abas e aquilo era-me estranho e parecia que nunca poderia dar nenhum resultado. Então ela mandava-me sentar na camilha a ver as Selecções do Readers Digest - acho que ainda não sabia ler bem -, onde havia imensas imagens e histórias sobre os novos fogões americanos e assim. Depois saía para ir ao cabeleireiro. E sempre que ela saía e eu ficava sozinha em casa, ia para o sotão beber um cálice, atenção que eu sabia a diferença entre um cálice e um copo, de Cinzano Rosso, que ela tinha das viagens a Badajoz. Ficava um bocadinho tonta e com muito medo de ser apanhada pela Ermelinda, mas valia a pena. All that simple things that won´t come again. Estou a ouvir Mr. George Michael que é com quem falo quando preciso daqueles dias do Padre Américo.

Pure Linen

Eu vou lá. Vou lá ver se tens os olhos fechados e estás a dormir bem. Vou velar o teu sono e ver se viras os olhinhos, inspeccionar todos os teus REM. Sentir se estás a respirar como fazem as mães de primeira viagem. Conto-te histórias, prendo-te as mãos para não me poderes tocar enquanto olhas para mim e eu faço coisas, não essas, outras: como falar-te do cheiro da gasolina, ou olhar para ti com amor enquanto ouvimos a minha lista de música só francesa e pensamos nas cenas de amor do Blue is the Warmest Colour. Eu vou lá, onde estiveres e como uma criança hei-de dizer-te que nunca houve ninguém antes, nem mar, nem rios, nem outros lugares. Nem nunca me sentei horas a olhar para o eyes in the heat que o Pollock pintou na casa de Long Island e que os teus olhos nada mais são  do que os teus olhos à noite, no escuro e que a tua boca só é o que é, quando eu existo na tua cabeça. Está um gato preto em cima do telhado do meu vizinho, olhei agora. É muita sorte.

all the girls in town

O monte de roupa para passar continua amontoado nas cadeiras da cozinha. Isto deve ser coisa de mulher moderna, sem puto glamour, mas muito bom senso. E porque nunca serei uma excêntrica, a roupa desaparecerá das cadeiras hoje sem falta. Preferia o glamour, preferia o onanismo, preferia beber Jameson ao acordar e ter uma voz muito rouca igualzinha à da Maria Bethânia. Preferia ser a Bethânia e comprar uma casinha pequenina em Portofino, de ouvir la vie en rose - sem me envergonhar com o over acting de Edith Piaff -  todos os dias, de não sentir coisas bregas como le mépris e assistir a um Godard sem me entediar. Isto é, voltar a ter 17 anos e adorar comprar cruzes no Ferreiro. O que eu queria mesmo hoje, aqui e já, era uma vida italiana. Ser uma pintora italiana prestes a ser descoberta e gira nas horas. Mas por enquanto há a vida e também há a vista da janela da minha cozinha, que é romantico-decadente e bonita e tenho adormecido a ouvir Erik Satie e acordado com a versão da Isabella Tavianni do Why do birds suddenly  appear. Uma mulher é imensas coisas.

 

Mar

Ontem a Cristina morreu. E morreu o nosso barquinho de borracha que tinha um remo cor-de-laranja e era o mais lindo da Praia da Falésia. E morreu o mar baixinho e transparente do Algarve. O primeiro mar sem ondas das nossas vidas. E morreu o Mini-Golf da Aldeia das Açoteias. E rebentaram as nossas bóias de patinho e as braçadeiras dela, sempre muito melhores que as minhas. E o cheiro a Verão. E as nossas passagens por Grândola quando descíamos para o Algarve, para a apanhar a ela e aos pais dela e irmos em filinha indiana, para baixo, a fazer adeus uns aos outros quando pediamos aos nossos pais para se ultrapassarem durante a viagem de carro, que durava seis horas para que a chegada fosse a felicidade total. Ontem a Cristina morreu e levou o meu melhor bocado, o de reconhecer o cheiro das flores, ter medo das abelhas, do escuro, de ir com os nossos pais para fora de pé. Ontem a Cristina morreu e eu não consigo mandar esta tristeza embora, nem saber como vou viver com a certeza de que não vou mais voltar a ser aquela miúda tão, tão feliz. E só para que saibas, porque nunca te disse, tinhas as bochechas sempre cor de rosa e isso dava-te um ar de gaiata alentejana feliz e era tão bom.

L´Arrache Coeur

O meu crush são famílias antigas francesas. Este ano, estando eu estacionada nas areias quentes de Copacabana, à espera dos fogos, com uma garrafa de fake Champagne, apareceu um exemplo deste tipo de família que me deixa fora de mim. Com vontade mesmo. Muitas das pessoas que têm apartamentos na Avenida Atlântica fazem festas particulares de onde vêem o fogo de artifício nas suas varandas de 300 metros quadrados e mais tarde descem à praia para saltar ondas, dar um ar de sua graça, ou simplesmente, poderem brincar de Lança Perfume longe da cara dos caretas.

Paris foi uma vez a minha cidade, eu tinha quinze anos, uma melhor amiga e o coração a trabalhar correctamente. E Paris fica para sempre quando vemos a rive gauche com o coração a funcionar. A pessoa apaixona-se pelas francesas, pelos cortes de cabelo dos franceses e quer ser a Jean Seaberg e passar o tempo todo à bout de souffle e compra muitas boinas que nunca mais vai usar e senta-se no chão da Fnac e aprende a dizer allons y. Coisa que nunca tive o prazer de dizer a ninguém de uma família antiga francesa. Apesar disso e como o mundo escreve direito por linhas tortas foi em Paris que me apaixonei pela primeira vez por uma mulher, que escrevi as primeiras cartas de amor a uma mulher, que tive uma vontade maníaca de morder os lábios de uma mulher. Depois cresci e foi só vento sem parar. Sabem o que é uma Stalker? Sabem como descobrir uma stalker? É muito engraçado e fácil. Vejam: 1- Nas dez primeiras mensagens que vos mandarem vão dizer que não são stalkers; 2 - São excelentes sexters; 3 - Podem levar anos nisto que jamais desistem; 4 - São pessoas salvadoras de pessoas más.  Escritoras têm um ego do tamanho de uma música do Caetano Veloso e são visceralmente disgusting. E é por isso que ando a espancar o gordufo do ego dentro de mim todos os dias. Ainda bem que vai começar a chover, é mais uma sevícia, o mete nojo  odeia chuva.

 

Chewing Gum

No dia em que Wally voltou a sair à rua sem ser por obrigação não mais lavou os dentes ao cão. Era um hábito que tinha e que ninguém compreendia, mas que para ela fazia todo o sentido porque andava sempre triste e evitava sujidades e mau odor. Vivia com a mãe, gostava de mulheres, fazia dança de salão, corria com pesos nas pernas, levantava uns outros - para ter os braços definidos - que mantinha desarrumados na sala. E quando gozava parecia uma louca de filme de terror tal a maneira como rodava a cabeça e dizia um monte de caralhetes. Wally tratava as pessoas por você, tinha namoradas que tête-à-tête lhe chamavam fofy e um carrinho para ir trabalhar às nove da manhã, pequenino e sempre muito limpinho. A mãe dela encontrava-se desprevenida de todas estas facetas de Wally e nunca pensou que epifanias acontecem. A senhora nem sabia bem o que era uma epifania até a filha lhe ter explicado que era uma coisa parecida com o acaso, mas que provocava sensações muito, muito parecidas com um orgasmo clitoriano. Wally contou tudo isto à mãe com uma pastilha elástica na boca, um metro e cinquenta e cinco de altura e sem nunca ter passado sequer um Outono em Nova Iorque. Uma pessoa que lava os dentes ao cão todos os dias, tem alguma dificuldade em se libertar.

getting away with murder

Será amor roubar um telemóvel, devassar toda a cabeça que está dentro desse telemóvel e depois ir entregá-lo à mercearia em frente? E digo eu: Não. É coisa de ciganos, sem desprimor para os ciganos. O meu avô também nunca abriu cartas dirigidas à minha avó e nesse tempo podia tê-lo feito protegido por uma lei machista, malcheirosa e mal-formada que deixou seguidores. E portanto hoje a realidade ainda é uma coisa bestial, de besta mesmo. E ontem a minha vida ultrapassou-a, na medida em que ainda não acredito na cara do indiano da mercearia enquanto me devolvia, aflito, o iphone que me tinham roubado de casa e resolveram quando lhes apeteceu, ir lá deixar.

Horas depois, já os meus vizinhos podiam descansar, recebi uma mensagem que rezava assim: "Sabes que li tudo. És uma drogada. És uma miséria". E isto, que até parece uma música dos ENAPÁ 2000, não será mais do que o resultado desta violência moderníssima, na sua forma mais requintada, que é lerem-nos as entranhas nos nossos télélés e tal como os maridos do antigamente getting away with murder, porque as mulheres finalmente revelaram ser aquilo que na verdade eles sempre souberam que elas eram: mulheres, putas, adúlteras, muito miseráveis e viciadas em rapé.
Não me espantou, portanto, a assunção final, até bastante lisonjeira - temos que saber rir da pequenez dos nossos dias - que aquela pessoa fez daquilo que eu sou. Serei tudo isso. Mas, graças a Deus, ainda não violo correspondência.
Obrigada avô pela educação e desculpem o constrangimento, mas a minha mãe já não aguentava mais ver-me vomitar e eu estou um bocado violada, passada. Ou drogada, quiçá.

alternative facts

A família é um grupo de pessoas que todas juntas tem uma força sobre nós maior que uma canção boa do George Michael, daquelas que arrepiam por nos lembrarem coisas, pessoas, lugares, ou tudo junto porque ele era hipertriper maravilhoso. Na maior parte do ano, a família pode ser a muralha de aço, ou algum muro que queiramos construir, porque estamos muito loucos e o mundo desaba rapidamente sobre a nossa cabeça. A Melania e o Barron Trump estarão a sofrer?

Eu, para fazer face ao mundo mau, instalei o Tinder no meu telefone e começo a ter muita pena de ainda não ter ido a Manaus. E ter passado anos a drogar-me com Rivotril e a desejar fazer retiros, terapias freudianas, terapias familiares, terapias quânticas. O estado da América está a acabar comigo. A sério. E este ano, ainda queria ir ao Brasil, a Marraquexe, a Berlim, muitas vezes à Herdade da Matinha e em Dezembro assistir à Missa do Galo, em Vila Viçosa. Apesar do Natal só ser bom até aos 12 anos e Depois ser mau como eles no Laranja Mecânica, ou muito lost como o fotógrafo do Blow Up. Aposto no vinho a preços bons no Pingo Doce e ao quarto copo de vinho torno-me mais sociável. Também costumo oferecer meias. Já vos disse aquilo do Tinder?

Suzanne

Ando a tentar seguir aquele conselho saudável e não olhar para o telemóvel a partir das oito da noite. Houve uma noite em que já consegui até não o levar para dentro do quarto, que acho que é quando conseguimos a pontuação máxima no jogo pelo Nirvana. Anteontem não foi o caso e, portanto às quatro da manhã, subjugada pelo poder do telemóvel e o livro A Vegetariana não me interessar para nada, pus-me a ouvir Famous Blue Raincoat, lavada em lágrimas, como se uma pessoa da minha família tivesse morrido, ou como se chora quando as coisas não estão no lugar certo e de repente somos confrontados com isso. Como sou uma pessoa que costuma evitar confrontos ao ponto de me considerar uma cobardolas, chorei ainda mais convulsivamente durante a meia hora seguinte: ouvi, Bird on a Wire, ouvi, I´m your man, ouvi Chelsea Hotel#2, ouvi Tower of Song que não conseguia ouvir para aí há vinte cinco anos, quando tudo deixou de estar no lugar e passei de adolescente a crescida. 

Como não estava sozinha éramos duas a ouvir. A C. tem sentido de humor que é a única coisa que costuma salvar estas situações e ia fazendo perguntas cada vez mais inusitadas sobre o meu estado, que não deixava de ser uma surpresa para ela, eu nunca tinha sequer proferido o nome Leonard Cohen em conversas profundas, alegres, tristes, económicas, elegíacas, más ou amorosas, e de repente era como se ele fosse uma pessoa com quem eu tinha mantido uma relação secreta. Mais outra. Porque fiz-lhe o mesmo com Lloyd Cole.

Toda esta minha apetência pelo espectro músical You Want it Darker que tem a ver com dôres de alma - não digo corno, porque estou a falar de Leonard Cohen que vi uma vez ao vivo no Coliseu dos Recreios e portanto qualquer pestanejar que seja, para falar sobre ele, me parece excessivo - deixa-a muito angústiada com o meu passado e a pessoa em que hoje me tornei, e fica a querer saber mais para não se pôr também a chorar e depois diz baixinho, E Donna Summer, não ouvias? E ficavas a ouvir sentada numa cadeirinha e a chorar? E ouvia e ficava e portanto abraçámo-nos e ela fez-me rir de mim e voltámos a adormecer, tristes mas agarradas. Porque isso é o que o amor faz nestes momentos. E eu ainda tive tempo de pensar que o Leonard Cohen não era da minha família. Porque se fosse nunca teria estado no mesmo, quarto, sala, cozinha, casa, carro que eu e os meus amigos em algumas das conversas das nossas vidas, quando nós não sabíamos mas tudo ainda estava no lugar certo.


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