Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

conaculta

"We must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem"

Suzanne

Ando a tentar seguir aquele conselho saudável e não olhar para o telemóvel a partir das oito da noite. Houve uma noite em que já consegui até não o levar para dentro do quarto, que acho que é quando conseguimos a pontuação máxima no jogo pelo Nirvana. Anteontem não foi o caso e, portanto às quatro da manhã, subjugada pelo poder do telemóvel e o livro A Vegetariana não me interessar para nada, pus-me a ouvir Famous Blue Raincoat, lavada em lágrimas, como se uma pessoa da minha família tivesse morrido, ou como se chora quando as coisas não estão no lugar certo e de repente somos confrontados com isso. Como sou uma pessoa que costuma evitar confrontos ao ponto de me considerar uma cobardolas, chorei ainda mais convulsivamente durante a meia hora seguinte: ouvi, Bird on a Wire, ouvi, I´m your man, ouvi Chelsea Hotel#2, ouvi Tower of Song que não conseguia ouvir para aí há vinte cinco anos, quando tudo deixou de estar no lugar e passei de adolescente a crescida. 

Como não estava sozinha éramos duas a ouvir. A C. tem sentido de humor que é a única coisa que costuma salvar estas situações e ia fazendo perguntas cada vez mais inusitadas sobre o meu estado, que não deixava de ser uma surpresa para ela, eu nunca tinha sequer proferido o nome Leonard Cohen em conversas profundas, alegres, tristes, económicas, elegíacas, más ou amorosas, e de repente era como se ele fosse uma pessoa com quem eu tinha mantido uma relação secreta. Mais outra. Porque fiz-lhe o mesmo com Lloyd Cole.

Toda esta minha apetência pelo espectro músical You Want it Darker que tem a ver com dôres de alma - não digo corno, porque estou a falar de Leonard Cohen que vi uma vez ao vivo no Coliseu dos Recreios e portanto qualquer pestanejar que seja, para falar sobre ele, me parece excessivo - deixa-a muito angústiada com o meu passado e a pessoa em que hoje me tornei, e fica a querer saber mais para não se pôr também a chorar e depois diz baixinho, E Donna Summer, não ouvias? E ficavas a ouvir sentada numa cadeirinha e a chorar? E ouvia e ficava e portanto abraçámo-nos e ela fez-me rir de mim e voltámos a adormecer, tristes mas agarradas. Porque isso é o que o amor faz nestes momentos. E eu ainda tive tempo de pensar que o Leonard Cohen não era da minha família. Porque se fosse nunca teria estado no mesmo, quarto, sala, cozinha, casa, carro que eu e os meus amigos em algumas das conversas das nossas vidas, quando nós não sabíamos mas tudo ainda estava no lugar certo.

A dieta dos 31 dias

Tem que haver um Deus que nos tenha feito ouvir Pink Floyd aos quinze anos  que nos tenha oferecido o livro A Casa dos Espíritos, da Isabel Allende. Ou a Insustentável Leveza do Ser do  Milan Kundera, o perfumoso do Kundera que só miúdas que vão ser esquisitas o resto da vida gostam e portanto sublinham passagens do livro em que entram outras miúdas todas nuas, de chapéu de côco, a olhar para o próprio pipi reflectido num espelho barroco, em apartamentos, em Praga.
Pior só ouvir os Delfins, na Bahia de Cascais, lá no bar onde alguns bebiam Bloody Marys e faziam um tipo de jornalismo literário tão amado pelos leitores da revista Kapa.
O Miguel Ângelo ali perto ia ajudar-nos com a música, Nasce Selvagem, apesar do Kundera e das suas malucas checas cheias de frio que só nos davam ideias soviéticas de fazer coisas ao espelho quando mulher nenhuma se pode olhar assim ao espelho, toda nua e de chapéu de côco, a não a Juliette Binoche ou a Lena Olin.

Mas também tem de haver um Menino Jesus que chegue em dias quentes, numa igreja branca e azulzinha em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, onde nasceram, Caetano Veloso, Baby, ou Sampa, ou Eclipse Oculto, e Maria Bethânia a cantar todas as coisas do nosso coração.

 



Pós-Guerra

Um dia foi o gato. E ao gato chamei Dexter, por causa da série de televisão. Durante uma semana, as pedrinhas e o corpo do gatinho todo escorregadio à minha volta. O gato não me fazia companhia nenhuma. Ou foi do cheiro das coisas do gato nas pedrinhas que tinham que ser mudadas, ou foi mesmo das unhas do gato nos cobertores e dos barulhos dele pela casa que me faziam ficar ansiosa, desci com ele no elevador e deitei-o fora. Atirei-o para umas moitas, ao lado de casa. Atirei-o e até imprimi alguma força no ato de me livrar daquele corpo maligno, felino e escorregadio, o gato parecia-me um de Lince da Malcata. Pus-me a pensar se todas essas pessoas sozinhas, todos esses adoradores de gatos já fizeram isto pelo menos uma vez na vida, continuo a precisar muito da aprovação dos outros. Devo dizer-te que não passo bem o dia, sem o cumprimento da puta da porteira, mal encarada, que ainda não percebeu nada sobre a minha vida.

A vida como ela é

Pari os meus filhos, criei os meus filhos, vendi lingerie rendada, encarnada, preta e cor de carne a amigas e conhecidas para fazer alguns trocos e fazer justiça ao curso de Relações Internacionais e às aulas de Ciência Política do Professor Sousa Lara, recebi colegas do meu ex-marido, chefes nórdicos do meu ex-marido, cujas mulheres não sabiam falar tesão. Chamei o neto do Nelson Rodrigues a quem pedi o favor de lhes explicar.

1974

Interessa saber que lhe contava histórias de amigos que tinham visitado o Bangladesh e lhe tinham trazido sabonetes feitos à mão por prostitutas, o tipo de coisa, dizia ela, que todos os parvalhões da física quântica iriam adorar. Interessa saber, que ela tinha uma pele óptima que parecia um pêssego de tão natural e que ela adorava isso, mas não tinha noção do custo monetário disso.

Enfim, interessa saber que pessoas gostam de ser mundos para outras pessoas e farão milagres por elas, por muito que às vezes — era uma coisa cultural nela —, necessitasse convencer-se de que não há heróis. Simplesmente, em 1974, tinha ela quatro anos, a homossexualidade foi reconhecida como mais uma forma de interacção animal (dizia ela) e deixara de figurar no Terceiro Manual Diagnóstico Estatístico dos Distúrbios Mentais.

Os pais dela tinham-na criado com base nos ensinamentos do Dr. Spock que talvez gostasse de fazer Scuba Diving e mergulho profundo nas noites do Trumps, nos tempos em que o António Variações lá tinha sido porteiro.

 

A menina furiosa

Pois se era Deus, Deus sabia de tudo e só podia estar de má fé e odiar mulheres como o Stieg Larsson. E havia umas mulheres que me respondiam que não e que os homens delas as achavam sexy e que elas ficavam excitadas com a excitação deles e que então, durante os nove meses e por tudo e por nada, faziam à canzana com os respectivos e também e até com amantes – aquelas que os tinham -, e tudo era perfeito e por isso, ao mesmo tempo, muito esquisito, como os super tubos do mar de Peniche.

Querer apertar os atacadores dos sapatos e ter que me sentar, porque a barriga enorme não me deixava ver os meus pés e depois do esforço só poder beber um copo de vinho ao jantar. Ler livros de auto-ajuda de frente para os pedalinhos, na Lagoa Rodrigo de Freitas, enquanto outras crianças andavam, ali ao lado, de bicicleta.

 

 

 

After you gonne

Tristes pequenos adultos para quem os cigarros e a bebida deixam de ter algum magnetismo. Tristes pequenos adultos que largam drinks&cocaine e começam a gastar dinheiro em melhorias para a casa, que trocam a espontaneidade afetiva, pelo casamento, que deixam de subsistir a cafés e a nicotina e sentem culpa por acordar às duas da tarde. Que acham que já não é bom estragar casamentos alheios. Que deixam de ser a party girl e passam a ser a blue girl. Tristes pequenos adultos que deixam de querer ser gentis, só para serem recompensados. Tristes pequenos adultos que passam a dar aos outros o prazer de ganhar uma discussão, ou outra.

Tristes pequenos adultos que dizem: ojeriza. Que sentem ojerizas várias, por exemplo, em fazer revisões da matéria dada no que diz respeito aos amores. Que deixam de se apaixonar pelas aeromoças. Que começam a achar que os olhos da Charlotte Rampling não são lindos, mas muito assustadores. Que deixam de ir acompanhados à casa de banho do Purex brincar de fazer linhas imaginárias de cocaína: Enrolar a nota, cheirar o vazio e rir e rir e rir. Tristes pequenos adultos que deixam de gostar de ler escritores que usam a palavra ojeriza e clarividentes referem só um certo nojo. Por tudo.


«we must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem»

Autora

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D