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conaculta

"We must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem"

Stephen King

Tinha uma cena em Os Amantes de Maria de que te lembraste quando te disse que não conseguia fazer sexting contigo e és tão mais sexy que os lábios todos da Natassja Kinski. Mas é que contigo só me apetece escrever romances que comecem em Paris, due to the sound of your voice. E depois de desligarmos, deitada, toco-te tão civilizadamente que pareço uma mulher inglesa, muito seduzivel, quando tudo o que queria era ser um bocado má e pornográfica com as nossas cabeças e as tuas mãos e os teus braços. 

i put a spell on you

Esqueço a paixão e saio de casa para comprar bananas enquanto faço de conta que estou no lago Lugano. Passo por dois pedintes jogados em cima de um colchão sem ligar puto, mas vejo uma Jaqueira que me emociona de tão enorme. Ainda cheira a noite e a chuva e à tua falta. Penso que guardei o Bullet na gaveta das calcinhas e acho-me ridícula e queria estar ao sol frio e branco do lago Lugano e corresponder a todas as tuas expectativas. A Nina Simone a cantar o Ne me quittes pas e eu tão masoquista com vontade de almoçar Frango à Passarinho. Menina má e exibicionista a precisar que olhes para mim.

 

Ground control to Major Tom

Vai ser um despudor. Vai finalmente ser um despudor. O que aqui vou escrever, aquilo sobre o que aqui vou escrever. O meu sexo, o sexo, qualquer sexo, não é nada. Mesmo que fosse escrever sobre sexo com anões, com animais, com infantes. Ou mesmo que não fosse sexo e fosse outra coisa qualquer muito má, que expusesse a mim ou a alguém. Já fiz isso de mentira, tudo mentira. Coisas da minha experiência que é uma merda de tão insípida e em que as pessoas gostam de acreditar, ou acreditam mais depressa porque é tão fake. A mentira excita muito mais do que a verdade.

A verdade, aquilo sobre o que nunca fui capaz de escrever foi sobre ser mãe. Foi sobre estar sempre a dizer adeus aos meus filhos. Porque isso eu não sei desrever. Porque isso não se conta. Como não se conta as vezes em que quis ser boa mãe e não pude. Porque fiz uma escolha e choro todos os dias sobre essa escolha, sobre perder, sobre não saber, sobre não os ver todos os dias. Isso é o despudor. Isto é um despudor com que conto para me conseguir pôr em pé todos os dias de manhã. Todops os dias em que não sei como ela vai para a escola, em que não lhe dei dinheiro para o lanche, em que não sei se tem frio ou calor. Porque os meus filhos, que são a melhor coisa que fiz na vida, vivem no Rio e eu vivo em Lisboa.
O pior são as coisas pequeninas. São os silêncios que escolhemos ter, porque sabemos que faltam 120 dias para voltar a estarmos juntos. E nunca mais passam e nunca mais nos agarramos. Nem nunca mais podemos chorar na frente uns dos outros, sem achar que nos estamos a fazer um mal imenso. Os filhos são para estar com as mães. Todas as coisas que não vou ter oportunidade de lhes dizer. As coisas que já não me conseguem dizer. Os vestidos que não a vi usar, os braços dele e tudo nele que está um homem. 
Quero dormir. Quero não chorar, quero ser adulta e aceitar-me e aceitar a escolha que fiz, o mal e o bem que lhes faço, saber que sabem que gosto tanto deles, apesar do Oceano e de nunca mais os ter acordado para irem para o colégio. Podia continuar e estou certa que o despudor será isto. Mas de nada me vale. Obrigo-me a parar. Despudor é viver todos os dias assim tão longe.

Soul (Fucking)

Vôo rasante o nosso, por baixo da lua cheia de São Jorge, brasileira do meu coração. Barril de pólvora e depois os fogos no Cantagalo anunciam a chegada de várias drogas, todas elas muito azuis, muito azuis. O barulho da agulha quando a pousas no teu disco preferido da Nina Simone. Um pick-up na chuva e nós a respirar. Espera, pára, vou ter contigo e levo Shiva e Shakti só para nos ficarem a ver.  Diz-me lá, ma petite mort, vamos cut right through bullshit like junkies e together?

(Sorri, querida, porque estamos a fazer poesia.)

Warner Bros

Mais linda, mais pequenina, mais frágil, mais forte, mais minha e eu tua, mais nós a sentir tudo, mais forte, mais vulnerável, mais pequenina, tudo outra vez, mais voltar-te nos meus braços, mais mordidas tuas all over, perfeitas, como tu sabes fazer, onde estavas antes de mim, onde estava eu? Eu sei, perdida na praia como quando somos pequenos. Digo-te que és como os grãozinhos de areia, que cais entre os meus dedos, que és lisinha e me foges tanto. Não sei o que te mete medo, mas deve ser o Jack Nicholson e a Shelley Duvall, no Shining. Na verdade queria ser eu a meter-te medo por causa do amor. Queria que me deixasses pegar-te ao colo e adormecer-te dias seguidos e que não tivesses nunca mais, mais ninguém. Que as coisas todas te fossem indiferentes e boring. Queria que tivesses muita vontade de mim. Que usasses relógio e fosses capaz de matar gatinhos, torcendo-lhes o pescoço.

Dancing Queen

Estava a olhar para o tecto da sala a primeira vez que falámos. Devo dizer-te que foi um sobressalto, porque no mesmo instante pensei que te tinha perdido, que já tinhas passado e eu não podia voltar atrás. Uma pessoa anda à caça de gambuzinos e sai-lhe uma mulher. Gosto de verde e de vários azuis e venho para o Rio de Janeiro ver meninas, ver meninos e beber cachaça enquanto vejo o Turf. Prometi jamais tocar em Chandon que é uma coisa wanna be e eu sou de disfarçar muito em todo o lugar e também no meio das pessoas. Nunca ouvi a tua voz, porque é aqui que ela terá algum efeito borboleta sobre mim. Não acredito em acasos, sinto-me sempre enjoada quando tenho que ir ao talho e nós não seremos um acaso, (gostava mesmo de sobreviver a mim quando repito o mesmo palavreado besta com mais de uma mulher, ou quando exagero no uso do sal e da pimenta, na comida que faço).

Mas não dispenso uma colher de Maca no meu batido de banana matinal e esta vontade de te foder à bruta. Está muito, muito calor e aquela humidade amazónica no ar.


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