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conaculta

"We must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem"

Chega de Saudade

Digo mal da moça da loja, em Ipanema, que só me atende bem por causa da comissão, digo mal do cara que levou meus cem reias e nunca mais voltou com a maconha, digo mal dos maconheiros do Coqueirão, digo mal do cheiro a peixe podre nos dias de Verão na Lagoa, digo mal dos novos ricos pretos que encontro no Boteco do Itahy a comer a mesma picanha no rechaud que eu. Odeio os novos brasileiros que trocaram o copo cheio de gelo e whisky importado pelo Siraz ao jantar, os que vão degustar vinhos portugueses no Jockey e fumam charutos imensos logo depois. Odeio os grupos de mulheres quarentonas em seus almoços semanais na Rua Dias Ferreira. Odeio a Rua Dias Ferreira, onde se ouvem portugueses demais se queixando dos preços absurdos cobrados por dois ovos de codorna ao sal marinho. Tenho medo que o escritor Rubem Fonseca morra porque está velhinho e lhe sobreviva a Preta Gil que deveria estar tomando as novas pílulas de Green Coffee que a fizessem cagar o bolo de oitenta andares dos seus variados casamentos.

E anteontem, eu acho, um menino de dezesseis anos matou, esfaqueando e rodando o seu facão dentro das entranhas de um médico que andava de bicicleta, no Calçadão, num fim de tarde lindo de Sol.

Não sei o que sinto sobre esse menino.


«we must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem»

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