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conaculta

"We must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem"

Italian Street Style

Há anos que não escrevo nada. Não escrevo porque deprimi, deprimi porque não escrevo. Não consigo nem deixar bilhetes de amor. Também não consigo transmitir à Vera, que é a minha empregada no Rio, para não usar lixívia na roupa porque nunca me lembro que no Brasil, lixívia não se diz lixívia, diz-se água sanitária. Isto foi muito por causa das bolas que tomo, eu sei. Mas sinto-me muito incapaz. Quando pego numa caneta para escrever qualquer coisa, a coisa piora, sai mal, a minha mão treme e a minha letra já não é a minha letra. São uns escarafunchos muito feios por nunca mais ter escrito sem ser no teclado do computador coisas para a salinha de espionagem de vendedoras de tuperwares que é o Facebook. O que deprime mais ainda.

Por causa desta saraivada tão incapacitante tudo se transforma em calorias e passou a engordar. Sinto-me como se vivesse num anúncio politicamente correcto de gordinhas e prefiro que, além de lavar a minha roupa, dona Vera comande também a minha vida e tudo o que diga respeito ao meu futuro: levar-me ao Terreiro a ver se o meu Santo amolece e se compadece e vem resolver, por mim claro, toda esta problemática azteca. Isto sem eu ter que fazer coisas básicas como: ir buscar uma galinha viva, mas já depenada, uns búzios - mas só ao anoitecer - milho para pipoca, uma garrafa de cachaça, duas velas e mais duas coisas que fui proibida de relatar, mas irão fazer muito mal aos desidratados que estão dentro da minha cabeça e me estragam as ligações nervosas que me fariam ser boazinha (para as mulheres) e magra para tudo o que mexe e não mexe, inclusivé maçanetas de portas, coisa que também me apraz seduzir - e deixar o glúten e também não me fazer acreditar que só voltarei à tona se começar a esfaquear ciclistas amigos do ambiente, ou os angolanos dentro da Cartier, na Avenida da Liberdade, ou pessoas muito amigas das tartarugas anãs do kilimanjaro, além de todas as fufas mergulhadoras antropofágicas e feministas da minha vida. Também há um livro sobre motos Vespa que se chama: Italian Street Style.


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