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conaculta

"We must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem"

Mar

Ontem a Cristina morreu. E morreu o nosso barquinho de borracha que tinha um remo cor-de-laranja e era o mais lindo da Praia da Falésia. E morreu o mar baixinho e transparente do Algarve. O primeiro mar sem ondas das nossas vidas. E morreu o Mini-Golf da Aldeia das Açoteias. E rebentaram as nossas bóias de patinho e as braçadeiras dela, sempre muito melhores que as minhas. E o cheiro a Verão. E as nossas passagens por Grândola quando descíamos para o Algarve, para a apanhar a ela e aos pais dela e irmos em filinha indiana, para baixo, a fazer adeus uns aos outros quando pediamos aos nossos pais para se ultrapassarem durante a viagem de carro, que durava seis horas para que a chegada fosse a felicidade total. Ontem a Cristina morreu e levou o meu melhor bocado, o de reconhecer o cheiro das flores, ter medo das abelhas, do escuro, de ir com os nossos pais para fora de pé. Ontem a Cristina morreu e eu não consigo mandar esta tristeza embora, nem saber como vou viver com a certeza de que não vou mais voltar a ser aquela miúda tão, tão feliz. E só para que saibas, porque nunca te disse, tinhas as bochechas sempre cor de rosa e isso dava-te um ar de gaiata alentejana feliz e era tão bom.


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