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conaculta

"We must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem"

O Relatório Hite

O meu avô não sabia correr. Hoje quando me lembro dele e penso nisto acho que deve ter sido um homem intelectualmente interessante para algumas mulheres e mais para a minha avó que tinha um feitio irrascível.  A mais, nunca o vi sorrir, a não ser quando o Sporting ganhava, ou recebia um livro do John Steinbeck ou relia a biografia do Salazar, de Franco Nogueira. Ele nunca me pegou ao colo, mas herdei quase toda a sua biblioteca. Morreu fulminado por um ataque cardíaco, enquanto ouvia um jogo, na rádio. E por isso, nessa tarde de Abril, Maio, ou Junho, não chegou a comer a papa Maizena que a minha avó - que além do mau feitio, usava a laca dourada da Lóreal - lhe levava todos os dias, à hora do lanche e que ele comia sentado na sua namoradeira, na sala do segundo andar esquerdo, do prédio cor de rosa, à Alameda D. Afonso Henriques, onde havia uma varanda virada para a Fonte Luminosa. E onde eu assisti ao colo, não do meu avô, à manif mais linda da minha vida no Verão de 1975.

Depois, depois ainda há aquela coisa que todos nós escrevíamos uns aos outros na juventude, como a cantora Né Ladeiras ainda escreve aos namorados, "Sei-te de cor". Tenho muita vergonha.

 


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