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conaculta

"We must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem"

Suzanne

Ando a tentar seguir aquele conselho saudável e não olhar para o telemóvel a partir das oito da noite. Houve uma noite em que já consegui até não o levar para dentro do quarto, que acho que é quando conseguimos a pontuação máxima no jogo pelo Nirvana. Anteontem não foi o caso e, portanto às quatro da manhã, subjugada pelo poder do telemóvel e o livro A Vegetariana não me interessar para nada, pus-me a ouvir Famous Blue Raincoat, lavada em lágrimas, como se uma pessoa da minha família tivesse morrido, ou como se chora quando as coisas não estão no lugar certo e de repente somos confrontados com isso. Como sou uma pessoa que costuma evitar confrontos ao ponto de me considerar uma cobardolas, chorei ainda mais convulsivamente durante a meia hora seguinte: ouvi, Bird on a Wire, ouvi, I´m your man, ouvi Chelsea Hotel#2, ouvi Tower of Song que não conseguia ouvir para aí há vinte cinco anos, quando tudo deixou de estar no lugar e passei de adolescente a crescida. 

Como não estava sozinha éramos duas a ouvir. A C. tem sentido de humor que é a única coisa que costuma salvar estas situações e ia fazendo perguntas cada vez mais inusitadas sobre o meu estado, que não deixava de ser uma surpresa para ela, eu nunca tinha sequer proferido o nome Leonard Cohen em conversas profundas, alegres, tristes, económicas, elegíacas, más ou amorosas, e de repente era como se ele fosse uma pessoa com quem eu tinha mantido uma relação secreta. Mais outra. Porque fiz-lhe o mesmo com Lloyd Cole.

Toda esta minha apetência pelo espectro músical You Want it Darker que tem a ver com dôres de alma - não digo corno, porque estou a falar de Leonard Cohen que vi uma vez ao vivo no Coliseu dos Recreios e portanto qualquer pestanejar que seja, para falar sobre ele, me parece excessivo - deixa-a muito angústiada com o meu passado e a pessoa em que hoje me tornei, e fica a querer saber mais para não se pôr também a chorar e depois diz baixinho, E Donna Summer, não ouvias? E ficavas a ouvir sentada numa cadeirinha e a chorar? E ouvia e ficava e portanto abraçámo-nos e ela fez-me rir de mim e voltámos a adormecer, tristes mas agarradas. Porque isso é o que o amor faz nestes momentos. E eu ainda tive tempo de pensar que o Leonard Cohen não era da minha família. Porque se fosse nunca teria estado no mesmo, quarto, sala, cozinha, casa, carro que eu e os meus amigos em algumas das conversas das nossas vidas, quando nós não sabíamos mas tudo ainda estava no lugar certo.


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