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conaculta

"We must enter into that willing suspension of disbelief required in the reading of any poem"

Simon&Garfunkel, The Concert in Central Park

O que é que é bom na coca? É  quando aquela primeira linha, ainda o gosto amargo do pó não chegou à garganta, já eu sou a puta-da-gaja-mais-especial-de-toda-a-galáxia-e-mais-além. Oba! Oba! Jesus Christ e Buda juntos a brincarem no meu jardim, queres que te conte? Não há um único sonho inatingível. Dá-lhe mais um teco. Gostas? Gostas de mim sem problemas de expressão? E do resto do mundo todo cheio de verdades universais, apetece-te? Escrevo-te tratados sobre borboletas,  como regar as plantas ou fazer crochet. Posso pensar que me apetece cama com travecas, ou com pessoas do mesmo sexo, ou com pessoas do sexo oposto, ou com todas as mulheres de quem já gostaste. Faço dez corridas de obstáculos e alguns saltos à vara. Mr. Freud mandava os doentes cheirar? Mr. Freud cheirava e ficava desinibido. O Freud desinibido e eu fico a Kate Moss altamente gira e prestativa, o melhor sexo que tu já tiveste, um Kaibil do exército guatemalteco.

Já te contei da merda que fiz ao gatinho? E do prazer que é fazer um estendal de roupa bem feito?

 

Watsapp

(não respondas)

 

As tuas costas de frente para mim. Estamos deitadas. E no amor perguntavas se eu estava quente por baixo dos lençois brancos e outras coisas aterradoras em que aproveitavas para dizer a palavra fofinha. Mas era o amor. Não era uma amizade colorida, era uma vontade de ti, de repente, toda, toda minha e eu sentia borboletas na barriga porque estavas a olhar para mim e os teus olhos faziam tudo tão bem. E a seguir, sons e vem e faz-te na minha boca e sempre a olhar para mim, para eu também gozar, porque eram fucking sexy os teus olhos.

Há pessoas que dizem que sim, que é muito bom estar grávida e sempre achei que não, não, não, e pergunto a outras amigas, em corredores de supermercados, como hoje de manhã, olha lá, mas tu gostaste de estar grávida?

"as minúsculas portas da alegria"

Sacofricose, é quando alguns homens se masturbam em público sem que as pessoas ao redor percebam. Para isso, fazem furos no lado interno do bolso das calças ou dos shorts, sei lá,  permitindo que a mão passe pelo buraco e o sujeito possa alcançar o sabiá, pilota, caralho, touro, pilinha, tubo, para poder estrangulá-lo como lhe aprouver. Eu nunca mais cumprimentei ninguém que esteja com as mãos nos bolsos e quanto ao resto tenho como objetivo diário parar o carro, sempre que posso, em vagas para deficientes sem me sentir puto culpada.

 

Tectos trabalhados

Ter um Chesterfield, assim como ter estudado um bocado de Dante Alighieri no colégio, como tu estudaste nas freiras, dava-me  vontade de ti. O mar e ver o pôr-do-sol da Cala Migjorn, de mãos dadas parecia-me um certo tipo de lesbianismo erudito e muito sexy.

Passeavas pelo barco, muito despojada e espontânea, quase um totem, ah, elegantíssima na tua androginia. A mais alta e sem maminhas, gira, gira de morrer, bonita demais e tão moralmente deformada pela aparência que gostavas de países como o Cambodja e me contavas fascinada, sobre amigos que voltavam à província para mexer nas vacas e plantar tomilho e mudar de vida. Já isso, a mim me parecia uma grande, uma enorme de uma bad trip, da qual te tentava acordar quando brincávamos e te empurrava borda fora e caías a rir-te de mim, no mar azul de Formentera.

Eugénio de Andrade

Que tinha chamado o dealer, que estava à espera do dealer, que já gostava do dealer. Porque começava a desenvolver feelings about him. Que antes tinha passado no supermercado. Que tinha comprado Chèvre, Brie e Camembert, pão saloio quente, ainda a cheirar a quente. Que tinha sido simpática, (mais do que o necessário, porque tinha chamado o dealer) com a senhora que lhe serviu duzentos gramas de azeitonas pretas, lhe escolheu um chouriço e lhe foi buscar, lá atrás, uma caixa de cinco litros de vinho branco, de uma casta alentejana muito melhor do que as outras, apesar de estar a comprar vinho à caixa. Que escolheu Barilla para a massa que ia cozinhar. Que voltou para casa. Que bebeu dois copos do tal vinho e que, finalmente, começou a sentir-se capaz de escrever poemas sobre a luz dos dias e o vento a entrar pelas janelas do nôno andar. Era Verão e o tempo ia continuar quente, em Cascais.

O Relatório Hite

O meu avô não sabia correr. Hoje quando me lembro dele e penso nisto acho que deve ter sido um homem intelectualmente interessante para algumas mulheres e mais para a minha avó que tinha um feitio irrascível.  A mais, nunca o vi sorrir, a não ser quando o Sporting ganhava, ou recebia um livro do John Steinbeck ou relia a biografia do Salazar, de Franco Nogueira. Ele nunca me pegou ao colo, mas herdei quase toda a sua biblioteca. Morreu fulminado por um ataque cardíaco, enquanto ouvia um jogo, na rádio. E por isso, nessa tarde de Abril, Maio, ou Junho, não chegou a comer a papa Maizena que a minha avó - que além do mau feitio, usava a laca dourada da Lóreal - lhe levava todos os dias, à hora do lanche e que ele comia sentado na sua namoradeira, na sala do segundo andar esquerdo, do prédio cor de rosa, à Alameda D. Afonso Henriques, onde havia uma varanda virada para a Fonte Luminosa. E onde eu assisti ao colo, não do meu avô, à manif mais linda da minha vida no Verão de 1975.

Depois, depois ainda há aquela coisa que todos nós escrevíamos uns aos outros na juventude, como a cantora Né Ladeiras ainda escreve aos namorados, "Sei-te de cor". Tenho muita vergonha.

 

Absolut Vodka

A primeira coisa que gostei em ti foi a maneira que tens de me ouvir, uma coisa de importância, tenho deficit de atenção por causa da Joana Lídia, a miúda mais feia e mais boa a matemática e com a bata mais ranhosa da minha escola, que era sempre a última a ser escolhida para as equipas do Mata e que, por isso, um dia me pôs a chorar porque me "atirou coisas à cara".

Fazes uma expressão séria, que eu adoro, a ouvir cada sílaba minha, mesmo quando eu bebo e falo sobre os disparates e as alegrias das pessoas felizes que às vezes sabem confundir sexo com amor, ou não querem entender nada de sociologia ou engenharia financeira em Fevereiro, que é o mês mais curto e triste do ano.

E  sonho com usar óculos de leitura com uma armação à Woody Allen e sonho ter uma cinturinha fina, e andar toda nua, à tua frente, só com umas meias de baskett daquelas da American Appareil, altas, com duas riscas em cima, uma amarela e outra azul escura. E ter pequenos ápices amorosos e jantar contigo à luz de velas e contarmos as nossas histórias sobre raparigas talibans, raparigas da velha guarda, raparigas alucinógenas, raparigas um bocadinho escritoras, raparigas investigadoras de coisas sérias, raparigas que gostem de discutir a relação e só pensem na praia. E na praia estendermo-nos num sofá Chesterfield insuflável e encarnado a falar de como teres lido Dante Alighieri no teu colégio me faz querer-te tanto e tão bem. 

Chega de Saudade

Digo mal da moça da loja, em Ipanema, que só me atende bem por causa da comissão, digo mal do cara que levou meus cem reias e nunca mais voltou com a maconha, digo mal dos maconheiros do Coqueirão, digo mal do cheiro a peixe podre nos dias de Verão na Lagoa, digo mal dos novos ricos pretos que encontro no Boteco do Itahy a comer a mesma picanha no rechaud que eu. Odeio os novos brasileiros que trocaram o copo cheio de gelo e whisky importado pelo Siraz ao jantar, os que vão degustar vinhos portugueses no Jockey e fumam charutos imensos logo depois. Odeio os grupos de mulheres quarentonas em seus almoços semanais na Rua Dias Ferreira. Odeio a Rua Dias Ferreira, onde se ouvem portugueses demais se queixando dos preços absurdos cobrados por dois ovos de codorna ao sal marinho. Tenho medo que o escritor Rubem Fonseca morra porque está velhinho e lhe sobreviva a Preta Gil que deveria estar tomando as novas pílulas de Green Coffee que a fizessem cagar o bolo de oitenta andares dos seus variados casamentos.

E anteontem, eu acho, um menino de dezesseis anos matou, esfaqueando e rodando o seu facão dentro das entranhas de um médico que andava de bicicleta, no Calçadão, num fim de tarde lindo de Sol.

Não sei o que sinto sobre esse menino.

Italian Street Style

Há anos que não escrevo nada. Não escrevo porque deprimi, deprimi porque não escrevo. Não consigo nem deixar bilhetes de amor. Também não consigo transmitir à Vera, que é a minha empregada no Rio, para não usar lixívia na roupa porque nunca me lembro que no Brasil, lixívia não se diz lixívia, diz-se água sanitária. Isto foi muito por causa das bolas que tomo, eu sei. Mas sinto-me muito incapaz. Quando pego numa caneta para escrever qualquer coisa, a coisa piora, sai mal, a minha mão treme e a minha letra já não é a minha letra. São uns escarafunchos muito feios por nunca mais ter escrito sem ser no teclado do computador coisas para a salinha de espionagem de vendedoras de tuperwares que é o Facebook. O que deprime mais ainda.

Por causa desta saraivada tão incapacitante tudo se transforma em calorias e passou a engordar. Sinto-me como se vivesse num anúncio politicamente correcto de gordinhas e prefiro que, além de lavar a minha roupa, dona Vera comande também a minha vida e tudo o que diga respeito ao meu futuro: levar-me ao Terreiro a ver se o meu Santo amolece e se compadece e vem resolver, por mim claro, toda esta problemática azteca. Isto sem eu ter que fazer coisas básicas como: ir buscar uma galinha viva, mas já depenada, uns búzios - mas só ao anoitecer - milho para pipoca, uma garrafa de cachaça, duas velas e mais duas coisas que fui proibida de relatar, mas irão fazer muito mal aos desidratados que estão dentro da minha cabeça e me estragam as ligações nervosas que me fariam ser boazinha (para as mulheres) e magra para tudo o que mexe e não mexe, inclusivé maçanetas de portas, coisa que também me apraz seduzir - e deixar o glúten e também não me fazer acreditar que só voltarei à tona se começar a esfaquear ciclistas amigos do ambiente, ou os angolanos dentro da Cartier, na Avenida da Liberdade, ou pessoas muito amigas das tartarugas anãs do kilimanjaro, além de todas as fufas mergulhadoras antropofágicas e feministas da minha vida. Também há um livro sobre motos Vespa que se chama: Italian Street Style.

Piauí

Quando me vires a pintar rosas num daqueles livros de arte-terapia, lembra-te da minha felicidade ao entrar numa Banca de de Jornais do Leblon e cheirar as páginas, recém impressas, da Playboy da Flávia Alessandra. E isso foi há tanto tempo que o actor Marcos Paulo, que morreu novo, ainda era vivo e os familiares não tinham brigado pelos seus bens. E depois lembra-te da minha boca e dos meus dentes naquela história do tarado do meu vizinho, judeu ortodoxo, lá na quadra da praia da Rua Venâncio Flores. Porque fui eu quem atirou os ovos à procissão do Shana Tovah e sei que vais rir.

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